quarta-feira, 17 de abril de 2013

É um engodo achar que os momentos decisivos de uma vida, em que seus rumos habituais mudam para sempre, sejam necessariamente acompanhados de uma dramaticidade ruidosa e estridente, acompanhada de grandes surtos. Esta é uma imagem batida inventada por jornalistas bêbados, diretores de cinema ávidos por flashes e escritores cuja cabeça é à imagem e semelhança dos pasquins de terceira categoria. Na verdade, a dramaticidade de uma experiência decisiva para a vida é de uma natureza inacreditavelmente silenciosa. Ela tem tão poucas afinidades com a explosão, a labareda e a eclosão vulcânica que, muitas vezes, nem é percebida no momento em que acontece. Quando desenvolve seu efeito revolucionário e mergulha toda a vida numa luz totalmente nova, ganhando uma melodia completamente original, nova, ela o faz sem alarde, e é nessa falta de alarde que reside sua nobreza especial.
De Trem Noturno para Lisboa.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.



E assim conheci Manoel de Barros.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

E assim se desfez a menina
Linda, linda, e nem sabia

Um dia cobriu a barriga
Cresceu uns centímetros
Assumiu os joelhos
Deu um passo à frente (que jeito!)

Assim se perdeu a menina

E se perdeu num mundo sempre branco
De corpo, alma, coração aberto
Cheia de doces lembranças
Cheia das mais doces paixões



Hoje eu precisei percorrer alguns muitos km a mais para chegar ao trabalho. Por 4 minutos or so, baixei os vidros para o vento ainda leve e tocava Paradise #cenadefilme

Quando coisas ruins acontecem ou quando as pessoas são desapegadas, gostam de falar que devemos aproveitar cada momento como se fosse o último. Isso nunca fez sentido pra mim, até que me explicaram (ou eu entendi) que o significado era que devemos estar de corpo inteiro em cada momento. Se você estará tomando um sorvete logo mais, este sorvete deverá ser a coisa mais importante e você deverá se dedicar inteiramente a ele. Depois que entendi, passei a praticar nos meus momentos com as pessoas e isso me fez uma pessoa melhor. Praticar significa que não é natural e que eu ainda erro (e muito). Do desapego que Paradise me deu.

Life goes on
It gets so heavy
The wheel breaks the butterfly
Every tear, a waterfall
In the night, the stormy night
She'll close her eyes
In the night
The stormy night
Away she'd fly

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Fábula do Porco-Espinho

Num dia frio de inverno, alguns porcos-espinhos se juntaram para se aquecerem com o calor de seus corpos. Mas logo viram que estavam se espetando e se afastaram. Ficaram com frio de novo e se juntaram, ficando entre dois males até descobrirem a distância adequada. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas seus muitos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem.
Schopenhauer

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Sabe o filme 2 Filhos de Francisco? Vi outro dia novamente da metade para o final. Tem uma parte que Francisco se pergunta perguntando para Helena o que havia dado errado naquele sonho. Helena diz que não sabe de sonho nenhum não, que foi acordada que ela criou os meninos.

Se você vê os mesmos filmes, ouve as mesmas músicas ou ler os mesmos poemas em diferentes fases da vida, observa, reflete sobre e guarda coisas diferentes. Pela primeira vez refleti sobre o que Helena falou. Foi acordada que criei esses meninos. É acordada, sem vertigem ou filosofia, que eu vivo hoje (pelo menos até resolver umas questões acolá). Curto muito não, respondendo ao que eu acho que você perguntou.

Estou lendo O Dia do Curinga nos momentos de ócio no trabalho. São meus momentos de filosofia e olhe que nem estou amando o livro. Os momentos de filosofia, vertigem, sonho foram sendo substituídos pelas responsabilidades, que são muito mais duras, mais densas. É física, quase. Se você coloca responsabilidade no lugar da filosofia no espaço da sua vida, ela vai ocupar o mesmo espaço, mas vai pesar muito, mas muito mais. E olhe que nem estou falando em beleza!!

Há muito pouco o que se fazer agora. O importante é perceber que as responsabilidades só crescem e vão continuar crescendo, mas o espaço da sua vida não. O quanto antes se perceber isso melhor. E tem jeito da vida voltar a ser leve? Eu acho que não. Tem jeito de fazer de conta que é. Porque o que é denso também pode ser doce. A filosofia, o sonho, a meditação, a vertigem estão aí e continuam fazendo um bem danado.

Quando não me exigem toda a concentração do mundo (ou quando essas vozes ao meu redor me levam ao julgamento ou à ânsia), ouço música. De Lulu Santos e Nelson Motta. Eu gosto da música, só isso. Não há reflexão.

Já não tenho dedos pra contar
De quantos barrancos despenquei
E quantas pedras me atiraram
Ou quantas atirei
Tanta farpa tanta mentira
Tanta falta do que dizer
Nem sempre é "so easy" se viver
Hoje eu não consigo mais me lembrar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei
Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão
Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer
É encostar no seu peito
E se isso for algum defeito
Por mim tudo bem tudo bem
Já não tenho dedos pra contar
De quantas janelas me atirei
E quanto rastro de incompreensão
Eu já deixei
Tantos bons quanto maus motivos
Tantas vezes desilusão
Quase nunca a vida é um balão
Mas o teu amor me cura
De uma loucura qualquer
É encostar no seu peito
E se isso for algum defeito
Por mim tudo bem
Tudo bem, tudo bem

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Hoje o dia é cinza, frio, deslocado. É como se viessem cobrar aquele dia que foi quente e bonito do inverno hoje. Naquele dia não achei deslocado (e nem muito menos que cobrariam hoje).
Hoje eu passaria o dia sozinha, em silêncio. Caminharia... Respiraria longa e profundamente. Pegaria Quintana e leria assim:

AS DESPEDIDAS
Nas despedidas
O mais doloroso é que
- tanto o que fica como o que vai embora -
Poem-se os dois a pensar:
"Meu Deus! quando é que parte o raio deste trem!

E respiraria longa e profundamente.
Desta vez sentada... Até que o sol resolvesse sair novamente e aquecesse o que tem de bom dentro de mim.

Talvez por dó de mim, hoje amanheceu segunda-feira e é impossível o silêncio e a solidão.
Mas não Quintana.